sábado, 22 de agosto de 2015

O TEATRO SOCIAL

O Teatro Social, como é conhecido na Itália, equivale ao Teatro Educação no Brasil, seria o Teatro utilizado para fins pedagógicos, em escolas, presídios, instituições de saúde, comunidades etc.

Este artigo foi escrito pelo Professor Doutor Claudio Bernardi, pesquisador de Disciplinas Teatrais e do Espetáculo na Università Cattolica di Milano e coordenador da área Teatral e professor de História do Teatro e Antropologia Teatral na Università Cattolica di Brescia. Também ensina Dramaturgia, Ritos, Mitos e Simbolos das Organizações.
A tradução é de Claudia Venturi.

O Teatro Social

Texto de  Claudio Bernardi

Tradução de Claudia Venturi


Na nova teatrologia o Teatro social é a arte dos corpos que aspira ao bem estar das pessoas, dos grupos, das comunidades. Procura unir o cuidado e o bem estar da pessoa, no qual se sobressaem muitos saberes como a medicina, a psicologia, a arte terapia, o tratamento e o bem estar de coletivos, entre os quais se distinguem a política, o mundo do espetáculo, as ciências sociais.

O Teatro Social como meio, “veículo” melhor diria Grotowski, subordina a estética à ética. Revira o processo criativo através do qual não é a vida pela arte, mas a arte pela vida. Diz respeito a todos os seres humanos, não apenas aos profissionais do espetáculo.

O Teatro Social nasceu e se desenvolveu no âmbito do desconforto e do mau estar: não conta e não representa dramas e histórias de deficientes, detentos, doentes mentais, estrangeiros, periferias abandonadas, idosos, refugiados, mulheres com disturbios alimentares, “casos humanos” e tragédias de vários tipos. Nesta modalidade, o teatro da representação e a ficção em geral são insuperáveis, mas infelizmente pouco eficazes no quesito diminuir o mau estar e no retornar, ao menos, um pouco de bem estar para as pessoas em situação de sofrimento¹. O teatro da representação, o teatro de arte, é insuperável do ponto de vista do diagnóstico, mas não funciona como cura, porque se dirige à mente e não ao corpo-mente, ao espectador e não ao ator, ao agente que cada um de nós é.
Por este motivo Marco De Marinis define “O Teatro do outro”, como o Teatro Social, o teatro da ação².
Por isto os protagonistas, os atores do Teatro Social, são diretamente aqueles cujo corpo é negado, cujas relações são falidas, cujo ambiente de vida é um monte de destroços. Consequentemente, o Teatro Social não é ir ao teatro, mas possibilitar o fazer Teatro por todos. E os profissionais do setor não são os atores, o diretor, o dramaturgo, o cenógrafo etc., mas o operador teatral, o condutor, o dramaturgo social, os facilitadores de um processo criativo extraquotidiano para criar ou recriar uma vida menos trágica e mais cômica.
"...o homem é um animal social, político, cultural: sem o outro, sem os outros não pode viver e subsistir, Dependemos dos outros. Mas nós não imitamos todos os outros. Imitamos aqueles que são objeto de nosso desejo, as pessoas que amamos e admiramos, por isso queremos ter e ser aquilo que eles têm e são."
É importante exclarecer, de fato, que no teatro da ação, cuja forma mais alta é a arte performativa, frequentemente o trabalho com pessoas normais ou em situação de desconforto não direciona propriamente para uma cura e para o bem estar dos participantes e dos seus ambientes de vida e, sobretudo, para as suas relações, mas para a qualidade estética, em sentido mais amplo, da performance³. Também neste momento, no passar do mundo da representação ao mundo das situações e das experiências reais processadas pelos artistas performativos, nos encontramos de frente a uma formidável prática social dos mecanismos e dos dispositivos “estéticos” e comportamentais que condicionam, regulam e frequentemente oprimem a nossa existência e a vida social, ou seja, a biopolítica. Permanece excluída, ou ao menos não explicitada e sobretudo concretizada, a cura, a forma de vida quotidiana para empreender, pela emancipação e pela relação positiva para “inventar” com os outros.”
As razões da reviravolta copernicana pela qual todo o mundo faz teatro e o teatro social trata este mundo quando ele está “fora dos eixos”, como escreve Shakespeare em Hamlet (1º ato, cena V), são principalmente dois;
A primeira é que o homem é um animal mimetico, aprende, faz, diz, deseja, procura ser aquilo que os outros fazem, dizem, desejam.
A segunda, que o homem é um animal social, político, cultural: sem o outro, sem os outros não pode viver e subsistir, Dependemos dos outros. Mas nós não imitamos todos os outros. Imitamos aqueles que são objeto de nosso desejo, as pessoas que amamos e admiramos, por isso queremos ter e ser aquilo que eles têm e são. Este é o desejo mimético que é o motor da vida humana e cujo êxito erótico, quando se atinge, é cômico. Quando, ao contrário, esse êxito é negativo pelo qual o desejo de uns entra em conflito com o desejo dos outros, conduz ao eros da destruição.
É este o principal problema da humanidade: como viver junto sem nos fazermos mal, nos fazendo o bem?
O desconforto pessoal e social depende em substancia de um círculo vicioso de más repressentações, de ações ruins e de péssimas relações. Cada sociedade, e desse modo não apenas o teatro social, para atingir o bem-estar das pessoas, dos grupos, da coletividade deve trabalhar em todas as três frentes de representações, das ações e das relações até as pesquisas do círculo vicioso da alimentação simbólica da humanidade. Estas três frentes se associam habitualmente aos três pilares da cultura humana: o teatro, como auge das representações; a performance, como vértice da ação; a festa, como máxima expressão de uma coletividade em estado de graça.
O Teatro Social, em qualquer situação para a qual venha chamado, procura colocar em ação este círculo virtuoso através da combinação articulada de oficinas (para a ação), espectadores (para a representação), eventos (para as relações na ritualidade quotidiana e festiva). Em resumo: O que faremos?, Faremos como quem? Faremos como se...
O processo criativo do Teatro Social é um design de vida, que parte de uma acurada análise dos problemas e dos recursos, das representações, das ações e dos rituais das pessoas, grupos, comunidades para criar representações, ações, relações, capazes, após a intervenção do Teatro Social, em um projeto contínuo de transformação positiva das pessoas e dos ambientes de vida (familia, amigos, trabalho, tempos, espaços, escola, bairro, país, natureza etc).

"...os protagonistas, os atores do Teatro Social, são diretamente aqueles cujo corpo é negado, cujas relações são falidas, cujo ambiente de vida é um monte de destroços. Consequentemente, o Teatro Social não é ir ao teatro, mas possibilitar o fazer Teatro por todos."

¹Piergiorgio Giacché, Censire il teatro: il valore delle eccezioni, in Teatro e disagio. Primo censimento nazionale di gruppi e compagnie che svolgono attività con soggetti svantaggiati/disagiati, Arti Grafiche Stibu, Urbania 2003 (Recensear o Teatro: o valor das excessões, em Teatro e desabilidade. Primeiro recenseamento nacional de grupos e companhias que desenvolvem atividades com sujeitos em desavantajados/deficientes), a p. 15, distingue bem as duas diferentes aproximações do Teatro Artístico e do Teatro Social: existem “mais possibilidades e modos diferentes de entendeer e desenvolver a relação entre Teatro e desabilidade (ou melhor, entre o teatro e o serviço social e terapêutico relativo à desabilidade)”. Vai-se “de grupos ou experiências de teatro que experimentam o encontro com a desabilidade rigorosamente ao interno da própria poética e dos próprios fins de pesquisa artística, a grupos ou iniciativas sempre de teatro (e gestidos e dirigidos por teatrantes) que se colocam a serviço de estruturas, entidades e associações que trabalham com a desabilidade. (quando, em italiano, se faz referência à desabilidade não se trata apenas de deficiência física mas também aquela química, social, educacional ou de outros tipos de situações)
Esta é uma diferença essencial, a que passa entre uma experimentação teatral que persegue fins rigorosamente artísticos (e que chega a conquistar sujeitos ou a realizar projetos que definitivamente dizem respeito ou envolvem sujeitos com deficiência ou particulares), e a proposta de um teatro que nasce com o objetivo declarado de explorar e se tornar útil a sujeitos com desabilidade. Sujeitos que, de certa forma, permanecem como ‘usuários’ até mesmo quando se tornam ‘atores’ do próprio projeto teatral.”
Obviamente para Giacché o Teatro é só aquele de arte e profissional, por isso considera absolutamente in-sensato o Teatro Social, para o qual o teatro é um meio e não um fim. “Ora, se é verdade (como muitas vezes tive a oportunidade de dizer) que a submissão completa à função social reduz ou anula o sentido e a autonomia do teatro enquanto arte, é também verdade que um recenseamento que explore também esse lado último e in-sensato da relação entre Teatro e Desabilidade, seja, por fim, também útil: não é sem interesse, até para quem faz e produz teatro de forma profissional.” (ivi, p. 16).
² Marco De Marinis, Il teatro dell’altro, (O teatro do outro) La Casa Usher, Firenze 2011, p. 177. “O teatro é ação, agir (basicamente) físico”.

³ Shannon Jackson, Social works. Performing Art, Supporting Publics, Routledge, New York-London 2011.

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